sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Barroquinha ganha exposição sobre carnavais antigos

Antiga igreja hoje é um centro cultural da prefeitura

Em uma semana começa o Carnaval que, em Salvador tem, oficialmente, cinco dias, desde que, em 1981, entusiasmado pelo sucesso do ano anterior, o então governador Antonio Carlos Magalhães (1927-2007), em seu segundo mandato (1979-1983) assinou decreto instituindo ponto facultativo na sexta-feira, criando um dia a mais para a festa, que antes era realizada de sábado a terça-feira.

Para quem gosta muito de folia e de história, há uma programação interessante que começa a partir desta segunda-feira, 13, em dois espaços culturais do Centro Histórico. A exposição Memória do Carnaval, da Fundação Gregório de Mattos, acontece na Casa do Benin (Pelourinho) e no Espaço Cultural da Barroquinha. As fotografias fazem parte dos acervos do Arquivo Histórico Municipal e da Secretaria de Comunicação (Secom), apresentando como era o estilo da festa desde a década de 1940 (século 20) até os dias atuais.

A Barroquinha é um dos sítios importantes da cidade antiga e tem história intimamente ligada à descendência africana do povo de Salvador. Um dos acessos ao bairro é feito pela escadaria (antes ladeira), localizada exatamente entre o final da Avenida 7 e o início Praça Castro Alves. A Avenida 7, no centro da cidade, tem sentido único com destino ao Centro Histórico, e a escadaria da Barroquinha fica logo à direita, ao final da Ladeira de São Bento.

Antigo Cine Glauber Rocha visto do acesso a Barroquinha

Por este acesso, não há como passar de carro. Após a escadaria estão as barracas de comércio informal, com artigos diversos, material de couro e as ervas aromáticas e religiosas. Entre os vendedores de folhas, está a simpática Rosa Neris, moradora do bairro do Lobato que, há 20 anos, diz ela, trabalha no local, recebe moradores da cidade e turistas interessados nos famosos banhos perfumados. Rosa até dá algumas dicas, é só perguntar. "Turista vem muito aqui", comemora, embora com um tanto de desânimo por causa do baixo movimento registrado durante os dias de greve de parte dos policiais militares da Bahia (iniciada em 31 de janeiro).

A vendedora mostra a variedade de folhas para 'banhos'

O Espaço Cultural ocupa o prédio restaurado da antiga igreja de Nossa Senhora da Barroquinha. A área tem história relacionada ao primeiro terreiro de Candomblé da Bahia, que deu origem aos que hoje carregam o título de mais antigos e importantes representantes da religião afro-brasileira, como a Casa Branca (atualmente localizado na Avenida Vasco da Gama), o Ilê Axé Opô Afonjá (São Gonçalo) e o Gantois (Federação). O terreiro primitivo ficava no terreno onde foi erigido o templo, tombado como patrimônio histórico em 1941. A igreja, construída entre 1722 e 1726, sofreu incêndios, teve imagens roubadas e ficou por anos em abandono, até ser reformada e transformada no espaço cultural em 2009.

O público que for conferir a mostra apreciará os antigos trios e fantasias utilizados pelos baianos desde a década de 40 aos dias atuais para comemorar no Carnaval, destacando sua evolução e levando à reflexão sobre o significado da festa para a cidade, sua cultura e sua economia. Fonte: FGM

Detalhe da lateral do antigo templo de 1726

A exposição pode ser vista de 13 (inauguração às 16h na Casa do Benin) a 29 de fevereiro de 2012, das 9 às 17h, com entrada gratuita.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Todo menino do Pelô sabe tocar tambor

Tarde ensolarada em dia de bonitos contrastes em SSA

Os meninos da Escola do Olodum encantam com seu ritmo

A plateia atenta das escadarias da Casa de Jorge

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Procurando Nemo: da Lapa ao Pelourinho

azul
Fachadas do Pelourinho em dia de sol intenso

Apesar dos boatos e recomendações, não poderia ficar em casa com tanta coisa acontecendo do lado de fora do meu bairro. Fui ao Centro Histórico ver como estava o dia ensolarado por lá. Com a luz do sol, alguns monumentos, mesmo sem uma pintura ou sem a restauração devida, tornam-se mais bonitos. Queria ver, também, se os turistas estavam tranquilos em seu passeio pela cidade.

Dois navios atracaram no Porto de Salvador, um deles o gigantesco MSC Orchestra, por isso grupos de turistas com seu guias andavam por toda parte. Geralmente, o passeio deles começa na Cidade Baixa e chegam à Cidade Alta pelo Elevador Lacerda. Sobre o Lacerda, ainda não informei mas informo agora: precisa de uma boa pintura na fachada histórica. Nossas fotos agradecem. A vista da Baía de Todos os Santos, com o sol brilhando, o mar oscilando entre o azul e o esmeralda, muitos barcos ancorados na marina, estava fascinante nesta quarta-feira, 8 de fevereiro. Não resisti a mais uma foto.

O passeio começou, mesmo, na Estação da Lapa, onde desembarquei do ônibus (sim, é de ônibus que "viajo" por Salvador!). Perguntei ao motorista, mais apto a dar a informação, se, naquele instante em que chegamos, o movimento estava normal para o horário e ele disse que sim. "Normal; 'tá até cheia", disse Marcos, da empresa Verdemar. Honestamente, achei a estação com pouco movimento mas ele passa por lá todos os dias, nos mesmo horários, então, confiei em sua avaliação.

Passei pelo Shopping Piedade, um dos dois grandes do centro da cidade (com o Shopping Lapa) e ouvi opiniões divididas em relação ao movimento: "normal", disse uma; "'tá mal", disse outra. Segui para a Avenida 7, passando por uma rua lateral ao shopping, onde funciona um mercado ambulante ao ar livre: foi bem mais fácil passar por ali hoje do que em dias normais, acreditem. O mercado popular de ambulantes lota de tal forma em dias úteis que não é raro as pessoas se baterem e ter "engarrafamento" de gente. Na verdade, parecia que hoje, uma quarta-feira, era um sábado ou véspera de feriadão, com as pessoas se preparando para um fim-de-semana prolongado.

A Avenida 7 já foi uma das principais artérias de Salvador. Hoje é tomada pelo comércio formal (lojas de móveis, roupas, entre outros) e o popular (de vendedores que ocupam quase toda calçada). Se o turista resolver andar por ela, deve apurar a vista para achar bonitas igrejas, arquitetura semi escondida por marquises feias, o histórico Relógio de São Pedro entre árvores e o monumento ao Barão do Rio Branco, cercado por bancos mas com o gramado danificado. A Praça da Piedade já está recebendo os tapumes para protegê-la durante o Carnaval.

Como também queria ver e fotografar a força de segurança que patrulha a cidade por causa da greve de parte dos policiais militares e bombeiros do estado, percorri a pé, procurando os soldados e conversando com as pessoas. A quem perguntei, foi confirmada a presença do Exército - "acabou de passar por aqui" - mas confesso que só as vi na esquina da Praça da Sé com o Terreiro de Jesus na Rua Guedes de Brito, no Pelourinho.

No entanto, encontrei policiais militares ("toda greve deve manter 30 por centro da categoria trabalhando", disse um deles) no Relógio de São Pedro, na Praça Castro Alves, na esquina da Rua da Ajuda, Praça da Sé, Terreiro e Pelourinho. Descobri pelos telejornais, mais tarde, que o contingente estava praticamente todo no Centro Administrativo, na Paralela, onde grevistas ocupavam o prédio da Assembleia Legislativa da Bahia, Palácio Deputado Luís Eduardo Magalhães, desde 1º de fevereiro*.

Ouvi das pessoas que, todo final da tarde, o patrulhamento era intensificado no Centro Histórico, mas o comércio continuava baixando as portas mais cedo do que o habitual. À medida em que a tarde avançava, também avançavam os trabalhadores que estão montando as estruturas para o Carnaval: a passarela do colorido e divertido desfile gay de fantasias que acontece na Praça Municipal na segunda-feira de Carnaval, defronte ao Palácio Thomé de Souza, sede da Prefeitura, está bastante adiantada. Tem palcos sendo montados, também, na Praça Castro Alves, da Sé e Pelourinho.

No meio do caminho, antes de chegar à Praça Castro Alves e, em seguida, à Municipal, fiz uma pausa para fotografar o Mosteiro de São Bento, e foi justamente no horário dos cantos do Ofício dos Monges. A acústica fantástica da basílica, a melodia do órgão e das vozes afinadas serviram de trilha sonora perfeita para fotografar o interior do templo. Recomendo que o turista evite usar flash para não incomodar o momento de orações cantadas. Uma outra observação: assim como no mosteirinho da Graça, como a Igreja da Graça é chamada pelo pessoal do MSB, também aqui a gentileza é a marca registrada de quem trabalha e recebe os visitantes.

E lá vou, seguindo o passeio. Encontrei turistas de Curitiba bebendo água de coco na banca de Léo, perto da Ladeira de São Bento. Estava a R$ 1 para acabar, segundo ele, mas o preço normal é R$ 1,50. "Vou divulgar. Não vai cobrar mais caro quando o turista chegar aqui", disse e ele riu, o que pode significar que o preço vai oscilar. Já na Praça Castro Alves e Rua Chile, o número de pessoas era menor mas não havia sensação alguma de insegurança. Vi as personagens conhecidas (de outro post) trabalhando normalmente.

Cheguei, finalmente, ao Pelourinho ao mesmo tempo que um dos grupos MSC Orchestra. Dei sorte: a banda da Escola do Olodum vinha por outra rua, com a sua percussão característica, sob a regência do sorridente Mestre Pacote. O grupo, de 51 crianças e adolescentes, parou defronte à Casa de Jorge Amado, cujo azul da fachada se integra de forma harmoniosa com o azul do céu, em tarde clara, e fez um show. Dia de sorte. Hora de terminar com chave de ouro este post. Amanhã tem fotos!
Exército mantém segurança das ruas do centro da cidade

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Quando o sol se põe vem o farol

gente

"Essa música é paz em versos", escreve o usuário vitorclessa no último comentário postado para o vídeo abaixo no youtube, da música Farol da Barra, de Luis Galvão e Caetano Veloso, gravada pelos Novos Baianos em 1970. O grupo - originalmente formado por Luiz Galvão, Moraes Moreira, Paulinho Boca de Cantor, Baby Consuelo, Pepeu Gomes, Dadi, Jorginho, Baixinho e Bolacha - se reuniu no final dos anos 1960 (século XX) e tocou junto até 1979. Um dos integrantes, Moraes Moreira, o primeiro a fazer carreira-solo, foi, também, o primeiro cantor de trio elétrico do Brasil.

Quando Salvador, que enfrenta problemas por causa de uma greve de policiais militares desde o dia 1º de fevereiro, voltar ao seu estado normal (nada dura para sempre), serão estas as imagens que o turista verá ao chegar por aqui e for ao bairro da Barra e outras localidades da Cidade da Bahia. As fotos, com os belos versos e melodia dos poetas Galvão e Caetano, são os aperitivos para aguçar a vontade de nos visitar.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Centro histórico em um dia qualquer

igreja by Silvianasci (Simno)
igreja, a photo by Silvianasci (Simno) on Flickr.

Casario colonial no Centro Histórico de Salvador e, ao fundo, a Igreja do Convento de São Francisco, chamada de igreja de ouro por sua decoração interna onde quilos de ouro foram usados no revestimento das paredes e altares, decorados em estilo barroco. No pátio interno do convento, destacam-se os azulejos portugueses, com pinturas de Bartolomeu Antunes de Jesus. A igreja foi construída entre 1708 e 1723, enquanto que o convento é de 1587/1752

.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Antecipando uma caminhada histórica

Passeando em um dos shoppings da cidade (vou falar sobre eles mais adiante) peguei, em um posto de informações turísticas, um mapinha do Centro Histórico de Salvador com a indicação do tour a pé - caminhada histórica. Dei uma lida. Achei interessante.

Vou reproduzir pra vocês os atrativos pelos quais o turista vai passar, seguindo o mapa, já indicando que pretendo fazer o passeio assim que a situação na cidade se normalizar. Como vocês sabem, estamos enfrentando, em Salvador, desde o dia 1º de fevereiro de 2012, problemas por causa da greve por melhoria salarial dos policiais militares. As ruas, no entanto, são, atualmente, guarnecidas por soldados das Forças Armadas.

É um roteiro para quem chega de navio, pois começa no Porto de Salvador (bairro do Comércio), com duração de 3 horas. Dali, o visitante segue para o Museu do Ritmo, onde conhecerá o Trio Elétrico em sua versão original, aponta o folheto. Na verdade, o veículo exposto, que pertence ao cantor e compositor Carlinhos Brown, não é o trio elétrico original, a famosa fobica de Dodô & Osmar. Esta fica exposta na Casa da Música, Parque Metropolitano do Abaeté, em Itapuã. O veículo do Museu do Ritmo é a Caetanave, um trio elétrico originalmente construído pelo empresário Orlando Tapajós em homenagem ao cantor Caetano Veloso, que havia composto a música "Atrás do Trio Elétrico (1969), divulgando nacionalmente um produto genuinamente baiano. O trio restaurado a mando de Brown circulou em um ou dois carnavais e, depois, foi recolhido ao museu.

O roteiro segue, indicando subir à Cidade Alta pelo Plano Inclinado do Pilar (nem sabia que ele estava aberto) e saltar no bairro do Santo Antônio para ver a Cruz do Pascoal, Convento do Carmo, que faz parte da rede Pousadas de Portugal, do grupo Pestana, e Ordem 3ª do Carmo, onde está a imagem do Senhor Morto, uma da mais importantes obras da arte sacra brasileiras. Faço um parêntesis aqui.

Uma rua...
O Santo Antônio, em uma foto antiga...

O Santo Antônio é um dos bairros mais charmosos de Salvador. Histórico, e apesar de tomado por restaurantes e pousadas, ainda é residencial, com a padaria na esquina e os moradores antigos, o que lhe dá vida real. No Museu do Carmo, a imagem mais bonita, na minha opinião, era a do Senhor Atado à coluna, extremamente expressiva com seus olhos de rubis. Vou verificar se ainda está lá.

Igreja do Passo é o passo seguinte do mapa, com sua escadaria que foi cenário do filme e da minissérie "O Pagador de Promessas" (que tiveram os atores Leonardo Villar e José Mayer no papel principal em suas respectivas épocas). Em seguida, Largo do Pelourinho, Terreiro de Jesus (com a Catedral Basílica, a primeira Faculdade de Medicina do Brasil, o Cruzeiro de São Francisco e outras igrejas da região: São Domingos, São Pedro dos Clérigos, São Francisco e Ordem Terceira de São Francisco).

Casa de Jorge Amado
Fundação Casa de Jorge Amado faz parte do roteiro

Do Terreiro chega-se à Praça da Sé (e já estamos no sentido contrário do roteiro que apresentei aqui, outro dia) passando pelo Museu e Igreja da Misericórdia para chegar à Praça Municipal, onde está o Palácio Thomé de Souza, o Palácio Rio Branco, o Paço (prédio da Câmara de Vereadores) e o mirante ao lado do Elevador Lacerda.

Pelo elevador, o turista volta ao Comércio, na Cidade Baixa, e visita a Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia (Padroeira da Bahia), à esquerda do ascensor, o Mercado Modelo, quase defronte, na Praça Cayru, e vê o Forte São Marcelo, no mar da Baía de Todos os Santos. Preciso checar se o forte ainda está aberto a visitação. Se estiver, vale a pena pegar a embarcação e dar uma olhada. A vista de Salvador é linda, de lá. Neste roteiro de 3 horas, você terá 38 atrações entre igrejas, museus, centros culturais, palácios, praças e prédios históricos, restaurantes de comida típica, docerias, sorveterias e tabuleiros de acarajé.

Seguimos no mapa da Empresa de Turismo de Salvador (Saltur).

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Hoje é sexta: viaje na viagem

Sexta-feira, dia de vestir branco, de rezar na Igreja do Bonfim, dia de praia para os turistas, porque há sol lá fora, de trabalho para os moradores, porque sábado é só amanhã, de tentar descobrir a charada da 6ª no Viaje na Viagem e dia de agradecer.

Ontem, 2 de fevereiro, recebi a indicação do Salvador em um dia na #Viajosfera do jornalista e turista profissional, Riq Freire. Quem viaja sabe que o VnV é referência na rede para informações, dicas e respostas sobre diversos lugares do mundo. Como deve ter milhagem, esse viajante!!!

Os blogueiros e blogueiras de turismo sabem da importância das suas indicações. Por isso, hoje, uma pausa para me fazer de baiana exibida, e...


Aproveito e convido os leitores a passearem com Riq Freire por Salvador. O guia é completo. Não podemos dizer que é um olhar estrangeiro porque quem abre uma matéria com estas palavras sobre a capital da Bahia sabe, na essência, como é viver aqui!!!

"Salvador é a cidade mais exótica que você pode conhecer sem sair do país. É um lugar onde os outros brasileiros se sentem um pouco estrangeiros – ao mesmo tempo em que descobrem o Brasil mais essencial."

No mais...

Siga o Viaje na Viagem no twitter, siga o Ricardo Freire no twitter, visite o VnV no facebook e assine o Viaje na Viagem por email. Ufa! Muito obrigada, meu caro!

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Odoiá, Rio Vermelho

Odoiá

"A escultura de Iemanjá localizada em frente à Casa do Peso foi confeccionada por Manoel Bonfim em 1970. Trata-se de uma escultura de uma sereia feita de gesso, assentada sobre pedestal de concreto revestido com apliques variados, conchas e pedras portuguesas. É de propriedade da Colônia de Pesca Z1."

Dia 2 de fevereiro, dia de festa no mar...e, também, em terra firme do bairro do Rio Vermelho (localizado entre a Pituba e Ondina). A festa em homenagem a Iemanjá, a mãe de todos os orixá, acontece desde 1923. Conta-se que a colônia do povoado do Rio Vermelho - hoje Colônia de Pesca Z1 - vivia uma época de escassez de peixes e os pescadores fizeram promessas à Rainha das Águas pedindo a fartura. Atendidos, rede cheia, desde então passaram a homenageá-la, com uma procissão marítima para levar-lhe presentes feitos por eles e doados pelo povo. Conta a lenda, que o orixá deixa o mar no dia 31 de dezembro para passar uns dias em terra, e o dia 2 de fevereiro é a época de voltar à sua casa no fundo do oceano.

Os moradores de toda a cidade, devotos ou não do Candomblé, aproveitam a festa dos pescadores para também entregar seus presentes, agradecer as graças alcançadas e fazer pedidos. Cientes disso, eles preparam balaios onde são depositadas as oferendas da população (perfumes, sabonetes, espelhos, pentes e flores, entre outros) que são levadas a 7 km da costa junto com o presente principal, que a colônia manda fazer. Em anos anteriores, o presente era preparado em terreiros de Candomblé. Este ano a tarefa coube a artistas plásticos do bairro.

A Casa do Peso é a sede da Colônia Z1, onde fica a imagem de Iemanjá. É chamada assim porque ali era - e ainda é - feita a pesagem dos peixes trazidos pelos barcos. Sobre ela há uma escultura (a foto que abre este post) e dentro da casa, a imagem do orixá e uma fonte. No dia da festa é aberta a visitação.

O bairro do Rio Vermelho, considerado o mais boêmio de Salvador, e onde artistas como Jorge Amado, Dorival Caymmi, Gal Costa, Pierre Verger, entre outros, já fizeram morada, passa o dia 2 de fevereiro inteiro em festa religiosa, com a presença de representantes de importantes terreiros de Candomblé, mas há, também, a festa profana, nas barracas e eventos particulares nas casas e restaurantes.

Vejam alguns aspectos do charmoso bairro que, mais adiante, terá outros posts, porque lá há muito o que ver e indicar...

Colônia de Pesca Z1, Casa do Peso e igreja de Sant'Ana: cenário da festa

Escultura que enfeita uma das praias do Rio Vermelho

uma tarde...
A vista do Rio Vermelho e a sereia, arte de Bel Borba

No Rio Vermelho...(1)
Arte encontrada em fachada de casa do Rio Vermelho

S

Leia mais sobre a Festa do Rio Vermelho aqui e aqui.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Vento que balança as palhas do coqueiro

coqueiros
Eles estão em quase todas as paisagens da cidade

Cantados por Dorival Caymmi, pintados por Carybé, tema de xilogravuras do mestre Calazans Neto, musa do poeta Arthur Salles... Nada é tão característico nas paisagens da Bahia quanto os coqueiros, ao lado das dunas de areia branca e fina. Uma das belas imagens que guardo das visitas a Salvador, quando vivia no Rio de Janeiro, era, sobrevoando de avião, ver, lá de cima, as dunas e os coqueirais, a senha pra saber que chegara à minha cidade. As dunas ainda existem em Salvador, no Parque Metropolitano do Abaeté, em torno da lagoa (da qual falaremos mais tarde). O turista encontrará coqueirais por praticamente todo o litoral baiano e também na capital, em Itapuã, principalmente.

Já falamos sobre o coqueiral do Jardim de Alah, Piatã e vimos fotos do Morro do Cristo (acima). São áreas onde a paisagem torna-se bela, com a presença deles. Ao contrário do que se imagina, o coqueiro não é típico do Brasil, embora exemplo de vegetação tropical. Ele foi trazido em 1553, como aponta estudo da Embrapa:

"O coqueiro gigante foi introduzido pela primeira vez no Brasil em 1553, no Estado da Bahia, sendo procedente das ilhas de Cabo Verde. A origem remota desse material seria a Índia ou Sri Lanka de onde cocos teriam sido introduzidos em Moçambique. Esta hipótese se acha confirmada pela semelhança entre o coqueiro do Oeste da África e o coqueiro Gigante de Moçambique (Nucé de Lamothe, 1983)."

"Eles sabem os segredos dos horizontes fugitivos..."

E também pela Seagri (Secretaria de Agricultura, Irrigação e Reforma Agrária):

Originário do sudeste da Ásia o coqueiro foi introduzido no Brasil através da Bahia (daí côco-da-Baia) donde disseminou-se pelo litoral nordestino que é responsável por 90% da produção nacional; Bahia, Sergipe, Rio Grande do Norte, são os maiores produtores. Na Bahia as regiões econômicas Litoral Norte, Extremo Sul da Bahia, Região Metropolitana de Salvador são as maiores fornecedoras de coco.

Garcia D'Ávila, o almoxarife real, que chegou à colônia com o fundador de Salvador, Thomé de Souza, de quem era filho bastardo, em 1549, e ganhou as terras ao Norte da Cidade da Bahia, foi quem primeiro destinou área para o cultivo do coco, onde hoje fica a Praia do Forte (a cerca de 100km de Salvador). Suas terras, o Morgado da Torre, estendiam-se até o Piauí e formavam o maior latifúndio do Brasil, ocupando quase um terço do território da colônia portuguesa.

coqueiros
"...movem os longos braços na atonia da tarde..."

O seu fruto faz parte da culinária baiana típica em moquecas, cocadas, é servido em tiras nas festas de caruru, em deliciosos sorvetes, especialmente os da Ribeira, e beber sua água faz parte do ritual de praia e de passeios, para hidratação em dias muito quentes. O melhor é vir, ver e provar. Pra entender, leia antes o que diz o poeta Arthur Salles (1879-1952), o mesmo autor da letra do Hino ao Senhor do Bonfim sobre eles:

Os coqueiros
Movem os longos braços na atonia da tarde,
Friorentos, exaustos, sonolentos...

Uns laivos lívidos de sol cobrejam na água plúmbea,
Onde se apaga o seu perfil de cegonhas estranhas...

Rápidos, ruflos de asas
- Últimos estremecimentos vitais do dia -
Passam fugindo dos seus vultos meditativos.

A água é negra, o céu negro...
Os coqueiros dormem dentro da noite apagadora...

país tropical

Ó, os coqueiros.
Eles sabem os segredos dos horizontes fugitivos...
Das distâncias irrelevadas...
Das praias ermas...
dos longes...

(Claudio Veiga, Sete Tons de uma poesia maior - uma leitura de Arthur Sales, Ed. Record, 2002)

E ouça o mestre Caymmi...

ondas de ontem